Comportamento

O luxo de parar no coração de São Paulo

9/29/2026

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O Parque Ibirapuera oferece um respiro em meio ao ritmo acelerado de São Paulo (Foto: Adobe Stock)

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Uma volta ao Ibirapuera abre espaço para pensar em pertencimento, rotina e outras formas de viver a cidade

São Paulo tem um ritmo próprio e, quase sempre, acelerado. A cidade parece nos lembrar, a cada instante, que há algo a fazer, algum lugar a alcançar, uma mensagem esperando resposta. Trânsito, reuniões, compromissos, buzinas, prazos. Tudo acontece de uma vez e, sem perceber, aprendemos a existir em movimento. Nesse ritmo, parar pode se tornar uma espécie de luxo.

Foi em um dia comum de trabalho que redescobri o Parque Ibirapuera. Durante muito tempo, deixei de frequentá-lo. Uma experiência ruim bastou para criar distância e transformar um dos lugares mais emblemáticos de São Paulo em um espaço que, pouco a pouco, deixou de fazer parte da minha rotina. Até que voltei.

Talvez essa seja uma das delicadezas dos reencontros. Retornamos ao mesmo lugar, mas nunca somos exatamente a mesma pessoa que esteve ali antes. E o Ibirapuera que encontrei naquele dia parecia novo.

Havia vida por todos os lados. Pessoas correndo, caminhando e pedalando. Skates atravessando os caminhos. Crianças brincando. Gente lendo à sombra das árvores. Grupos praticando yoga. Famílias, amigos, pessoas sozinhas. Algumas conversavam; outras apenas observavam o movimento ou deixavam o movimento passar por elas.

Para minha surpresa, havia também quem trabalhasse. Computadores abertos sobre as mesas, reuniões ao ar livre, cafés, quiosques e espaços de convivência mostravam que o parque podia ser incorporado à rotina de outra maneira. Não apenas como destino de fim de semana, mas como uma pausa possível dentro do dia.

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À sombra das árvores e à beira do lago, o parque também é espaço para pausa, descanso e contemplação (Foto: Adobe Stock)

Foi então que percebi que talvez eu não estivesse apenas redescobrindo um parque. Talvez estivesse observando diferentes maneiras de viver a cidade. Às vezes, não é o lugar que mudou. É a nossa disposição de voltar.

Enquanto caminhava, comecei a reparar nas pequenas tribos que compartilhavam aquele espaço. Os corredores. Os ciclistas. Os leitores. Os que meditavam. Os que estendiam seus tapetes para praticar yoga. Os que trabalhavam. Os que passeavam com os filhos. Os que simplesmente escolheram sentar sob uma árvore e permitir que o tempo passasse um pouco mais devagar.

Pensei, então, no quanto passamos a vida procurando pertencimento. Queremos encontrar pessoas com quem possamos dividir interesses, valores, ideias e experiências. Queremos fazer parte. Queremos sentir que finalmente encontramos “a nossa turma”.

Mas há uma contradição curiosa nisso. Muitas vezes desejamos novas conexões enquanto continuamos procurando sempre nos mesmos lugares, frequentando os mesmos ambientes e circulando entre as mesmas pessoas. Talvez, em certos momentos, seja preciso mudar o caminho.

Um passeio pode ser apenas um passeio. Mas também pode nos apresentar a um hábito desconhecido, despertar uma curiosidade, provocar uma conversa inesperada ou nos colocar diante de pessoas que vivem de um modo diferente do nosso.

Não precisamos pertencer a todas aquelas tribos. Talvez baste perceber que, entre tantas possibilidades, existe uma que conversa com uma parte de nós que ainda não encontrou espaço para aparecer.

Pertencimento não é necessariamente caber onde sempre tentamos caber. Essa foi, talvez, a reflexão mais bonita daquele dia. Quantas vezes insistimos em determinados grupos, relações, ambientes ou estilos de vida simplesmente porque acreditamos que é ali que deveríamos estar? E se o nosso lugar estiver em outro caminho?

Talvez aquele pedaço que parece faltar, o encaixe que procuramos há tanto tempo, esteja mais perto do que imaginamos. Pode começar em uma aula ao ar livre, em um grupo de corrida, em uma bicicleta, em um livro lido sob uma árvore, em uma conversa despretensiosa ou até na coragem de sentar sozinho e descobrir que a própria companhia também pode ser um bom lugar.

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Caminhadas, corridas e diferentes formas de ocupar o parque fazem parte da rotina de quem frequenta o Ibirapuera (Foto: Adobe Stock)

O Ibirapuera é um parque municipal e, desde 2020, sua gestão, operação e manutenção estão sob concessão à iniciativa privada. Naquele dia, porém, contratos e modelos de gestão eram apenas parte do contexto. O que realmente me chamou a atenção era algo bem mais simples. Eu podia parar.

No coração de uma das maiores cidades do mundo, compreendi que um dos nossos maiores luxos talvez não esteja em fugir de São Paulo, mas em encontrar, dentro dela, lugares onde a cidade parece baixar o volume. Lugares em que conseguimos respirar melhor. Olhar ao redor. E talvez escutar um pouco mais a nós mesmos.

O Ibirapuera continua cercado por avenidas, prédios, compromissos e toda a intensidade paulistana. Ainda assim, basta atravessar seus portões para que algo pareça se transformar. Talvez seja o ritmo. Talvez sejam as pessoas que encontramos. Talvez seja a possibilidade de perceber que existem outras maneiras de viver. Ou talvez sejamos nós.

Porque sair dos lugares habituais também significa abrir espaço para o inesperado: uma nova conversa, um novo interesse, uma nova tribo ou simplesmente uma nova versão de nós mesmos.

Naquele dia, fui ao Ibirapuera para trabalhar. Voltei pensando em pertencimento. E talvez esteja justamente aí a beleza de sair um pouco do caminho conhecido. Às vezes, aquilo que procuramos não está tão longe. Nós é que continuamos procurando sempre no mesmo lugar.