No domingo, depois das cinco, o Brasil fez algo inconveniente: apareceu.
Até então, ele existia principalmente como estimativa. Era uma amostra, uma margem de erro, uma curva de rejeição e uma fila de especialistas explicando o que o eleitor faria antes que o eleitor tivesse a oportunidade de fazer.
No último Datafolha antes da votação, Lula aparecia numericamente à frente, com 45% dos votos válidos contra 42% de Flávio Bolsonaro, um empate técnico dentro da margem de erro. Nas urnas, a ordem se inverteu: Flávio terminou com 47,03%, pouco mais de 56,1 milhões de votos, enquanto Lula teve 45,16%, cerca de 53,9 milhões.
É tentador concluir apenas que “as pesquisas erraram”.
Seria confortável demais.
Veritá, Gerp e Futura indicaram Flávio à frente e chegaram muito perto da diferença final. O problema, portanto, não foi a ausência de retratos capazes de enxergar o movimento. Foi a facilidade com que alguns retratos ganharam status de realidade oficial, enquanto os demais permaneceram na periferia da conversa.
A SURPRESA COMO CONFISSÃO
Surpresa não é uma qualidade do acontecimento. É uma medida da distância entre o acontecimento e quem o observava.
O eleitor brasileiro não trocou coletivamente de opinião entre sábado e domingo para constranger os comentaristas. Nem recebeu, às quatro da tarde, uma instrução secreta para alterar o resultado.
O que mudou depois das cinco não foi o país. Foi a quantidade de realidade disponível.
Pesquisa é uma fotografia, e o problema começa quando alguém pendura a fotografia na parede e passa a chamá-la de janela.
O instituto mede, e o comentarista acrescenta inevitabilidade. A campanha acrescenta confiança, e a imprensa acrescenta uma história. E, quando a urna não respeita o roteiro, todos se voltam para o eleitor como se ele tivesse improvisado a própria fala.
Não improvisou.
Apenas não havia lido o roteiro.
O ELEITOR NO DIVÃ
Depois de toda eleição inconveniente, começa uma sessão coletiva de diagnóstico.
- O eleitor votou por ressentimento.
- Foi manipulado pelo algoritmo.
- Caiu em desinformação.
- Não compreendeu a economia.
- Reagiu emocionalmente.
Alguma dessas coisas certamente aconteceu com algumas pessoas. Seria extraordinário imaginar uma eleição com dezenas de milhões de participantes na qual ninguém fosse impulsivo, mal informado, contraditório ou movido por interesses muito particulares.
O problema é a distribuição seletiva dos diagnósticos. Quando alguém vota como esperávamos, demonstrou consciência política. Quando vota contra nós, apresentou sintomas.
Um lado escolhe, enquanto o outro lado precisa ser explicado.
Essa é uma forma bastante elegante de defender a democracia sem correr o risco de respeitar plenamente o eleitor. Ele pode votar, desde que permaneça disponível um especialista para esclarecer que seu voto não significa exatamente aquilo que ele acreditava estar fazendo.
A urna, porém, não é uma sessão de terapia.
O eleitor não precisa apresentar uma justificativa intelectualmente impecável antes de apertar uma tecla. Seu voto pode ser emocional, imperfeito, interessado, contraditório ou mal formulado.
Com tudo isso, continua sendo uma escolha.
NÃO FOI APENAS UM SOBRENOME
Ainda seria possível tratar a vantagem de Flávio como um acontecimento exclusivamente presidencial: o peso do sobrenome Bolsonaro, a rejeição a Lula, o voto útil ou uma campanha mais eficiente.
Mas o mesmo eleitor também reorganizou o Congresso.
O PL elegeu 121 deputados federais, contra 97 em 2022, e formará a maior bancada da Câmara. A federação PT-PCdoB-PV terá 88 cadeiras. No Senado, o PL elegeu 19 nomes e começará a próxima legislatura com 28 senadores, a maior bancada da Casa.
O Brasil não se tornou homogêneo.
Lula recebeu quase 54 milhões de votos, e a federação liderada pelo PT também cresceu na Câmara. O país continua dividido, e o segundo turno permanece aberto.
Mas divisão não é invisibilidade.
Quando a mesma direção aparece na disputa presidencial e nas duas Casas do Congresso, talvez exista ali algo maior do que uma oscilação de última hora.
Um país não tropeça com 56 milhões de pés ao mesmo tempo.
A URNA NÃO CANONIZA
Nada disso torna Flávio Bolsonaro correto sobre tudo.
Não transforma cada eleito pelo PL em exemplo de caráter.
Não converte maioria eleitoral em verdade moral.
Urna não canoniza. Mas ela decide.
E, até agora, decidiu apenas o primeiro turno. A primeira pesquisa Datafolha da segunda etapa mostrou Flávio com 52% e Lula com 48% dos votos válidos, ainda no limite técnico da margem de erro. A votação será em 25 de outubro.
Portanto, isto não é uma volta olímpica. É a retirada de um álibi.
Depois de domingo, já não é possível chamar de marginal uma corrente política que chegou à frente na eleição presidencial e conquistou as maiores bancadas da Câmara e do Senado.
Pode-se rejeitá-la.
Pode-se criticá-la.
Pode-se tentar derrotá-la.
O que não se pode mais fazer com seriedade é fingir surpresa diante de sua existência.
SEM ADJETIVO
A opinião termina aqui.
Agora, os fatos que você consegue levar consigo:
- Flávio Bolsonaro obteve 47,03% dos votos válidos, e Lula teve 45,16%.
- O último Datafolha antes da votação mostrava Lula com 45% e Flávio com 42%, em empate técnico.
- Veritá, Gerp e Futura indicaram Flávio à frente e foram os levantamentos que mais se aproximaram da diferença final.
- O PL elegeu 121 deputados federais e começará a próxima legislatura com 28 senadores, as maiores bancadas das duas Casas.
- A primeira pesquisa do segundo turno mostrou Flávio numericamente à frente, mas a disputa ainda dentro do limite da margem de erro.
Esses fatos não explicam por que cada pessoa votou, mas estabelecem um limite para as explicações convenientes.
Talvez o Brasil não tenha aparecido depois das cinco. Talvez estivesse ali o tempo todo.
O que apareceu foi a distância entre o país e algumas das pessoas encarregadas de explicá-lo.
Leve os fatos. O juízo é seu.



