Comportamento

Mulheres que fizeram e mudaram a história

8/18/2026

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A presença feminina nos espaços de decisão retoma um protagonismo que atravessa séculos (Foto: Adobe Stock)

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Rainhas, guerreiras e estadistas que defenderam seus povos e inspiraram gerações

Muito antes de o voto feminino existir, mulheres já governavam reinos, comandavam exércitos e defendiam sua terra, sua família e seu povo com a própria vida. Este texto não é sobre vitimismo, mas sobre memória e inspiração. É um convite para relembrar mulheres sábias, conscientes e livres e para que possamos reconhecer, no espelho da história, a mesma força que sempre esteve ali.

Rainhas que governaram impérios

Cleópatra VII, última rainha do Egito, dominava diversos idiomas e possuía sólida formação em filosofia, matemática, medicina, diplomacia e administração. Em meio à expansão de Roma pelo Mediterrâneo, usou sua inteligência política para preservar a independência egípcia. Seu legado está nas alianças estratégicas com César e Marco Antônio e na extraordinária capacidade de governar um dos maiores reinos da Antiguidade. Em uma das civilizações mais antigas e singulares, uma mulher inspiradora deixou sua marca.

No turbulento século XVI, marcado pelas guerras religiosas que dividiram a Europa, destacou-se Catarina de Médici, rainha e, depois, regente da França, que herdou um país mergulhado em conflitos entre católicos e protestantes. Sua atuação segue debatida pelos historiadores, mas sua extraordinária habilidade diplomática na tentativa de preservar a estabilidade do Estado francês é amplamente reconhecida. Esse foi um dos períodos mais difíceis da história europeia.

Elizabeth I consolidou o poder inglês, fortaleceu a Marinha Real e derrotou a Armada Espanhola, inaugurando a Era Elisabetana. Antes da batalha, declarou às suas tropas em Tilbury.

“Sei que tenho o corpo de uma mulher frágil e fraca, mas tenho o coração e o estômago de um rei.”

Elizabeth I, Discurso de Tilbury, 1588

Séculos depois, a rainha Vitória tornou-se símbolo de estabilidade institucional, acompanhando a Revolução Industrial e consolidando o Império Britânico na chamada Era Vitoriana.

Guerreiras que defenderam sua terra e seu povo

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Monumento equestre a Joana d’Arc na Place du Martroi, em Orléans, França (Foto: Adobe Stock)

Durante a Guerra dos Cem Anos, a jovem camponesa Joana d’Arc liderou tropas francesas sem qualquer formação militar, acreditando ter recebido uma missão divina para libertar seu país da ocupação inglesa. Capturada e condenada aos 19 anos, foi depois inocentada e, em 1920, canonizada. Permanece um dos maiores símbolos de coragem, fé e patriotismo da história ocidental.

Na África Central do século XVII, a rainha Nzinga Mbandi, de Ndongo e Matamba, atual Angola, liderou por quatro décadas a resistência contra a colonização portuguesa. Diplomata e estrategista militar, negociou tratados. Consolidou Matamba como uma potência comercial e cultural que resistiu à dominação europeia direta. Hoje, sua memória transcende fronteiras e é considerada um símbolo de força e soberania.

No Brasil, Maria Quitéria desafiou os costumes de sua época, vestindo uniforme masculino para lutar ao lado das tropas na Guerra da Independência. Reconhecida por Dom Pedro I, tornou-se patrona do Quadro Complementar de Oficiais do Exército, símbolo da mulher que empunhou armas pela própria pátria.

Já Anita Garibaldi, brasileira, lutou ao lado do marido, Giuseppe Garibaldi, na Guerra dos Farrapos, no Rio Grande do Sul, e depois nas batalhas pela unificação da Itália. Ficou conhecida como a “Heroína dos Dois Mundos” por defender, com igual coragem, duas pátrias, a de origem e a que adotou.

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Detalhe do monumento equestre a Anita Garibaldi no Janículo, em Roma, Itália (Foto: Adobe Stock)

As imperatrizes do Brasil

A imperatriz Leopoldina, Maria Leopoldina da Áustria, presidiu o Conselho de Estado nas ausências de Dom Pedro e participou ativamente das decisões que levaram à Independência do Brasil, em 1822, além de incentivar expedições científicas sobre a biodiversidade nacional.

A princesa Isabel, preparada desde cedo em política, economia e administração pública, exerceu a Regência do Império em três ocasiões e, em 13 de maio de 1888, sancionou a Lei Áurea. A abolição foi fruto de um amplo movimento social e político, mas a assinatura da lei tornou-se um dos maiores marcos da história do país.

O legado segue vivo. Embora o Brasil seja uma república desde 1889, sem sucessão oficial ao trono, integrantes da antiga Casa Imperial mantêm-se ativos na preservação da memória, da cultura e do patrimônio histórico nacional. Entre eles, Maria Gabriela de Orleans e Bragança, hoje uma das principais representantes da família imperial brasileira, é reconhecida pela discrição, pela formação e pela participação constante em iniciativas culturais e sociais, dando continuidade, à sua maneira, a uma tradição de mulheres que a Casa Imperial do Brasil sempre soube cultivar.

Brasileiras que revolucionaram a cultura, a ciência e a sociedade

Chiquinha Gonzaga tornou-se, no fim do século XIX, a primeira maestrina e regente de orquestra do Brasil. Pianista e compositora autodidata, rompeu com o destino reservado às mulheres de sua época, o casamento e o lar, para viver da música, compondo mais de duas mil obras e assinando a marchinha “Ó Abre Alas”, o primeiro sucesso de Carnaval da história popular brasileira. Foi, à sua maneira, tão revolucionária quanto qualquer guerreira. Conquistou, nota a nota, um espaço que a sociedade não lhe reconhecia.

Tarsila do Amaral foi a principal pintora do modernismo brasileiro, autora de obras como “Abaporu” e “Operários”, que ajudaram a construir uma linguagem artística genuinamente nacional a partir do diálogo entre a vanguarda europeia e as raízes do Brasil. Integrante do Grupo dos Cinco, sua pintura inspirou o movimento antropofágico e redefiniu, no papel e na tela, o que significava ser moderno e brasileira ao mesmo tempo.

Bertha Lutz, bióloga e uma das principais lideranças do movimento sufragista brasileiro, fundou a Federação Brasileira pelo Progresso Feminino e teve papel decisivo na conquista do voto feminino no país, assegurado em 1932. Foi também uma das poucas mulheres signatárias da Carta das Nações Unidas, em 1945, levando a voz das brasileiras ao nascimento da ordem internacional do pós-guerra.

Nise da Silveira, médica psiquiatra, recusou-se a aplicar os métodos violentos então dominantes na psiquiatria, como o eletrochoque e a lobotomia, e desenvolveu no Rio de Janeiro, a partir da década de 1940, a terapia ocupacional pela arte. Tratou pacientes com dignidade e revolucionou, com essa escuta pioneira, a psiquiatria brasileira e mundial.

Irmã Dulce dedicou a vida à assistência aos pobres e doentes na Bahia, fundando as obras sociais que deram origem às Obras Sociais Irmã Dulce, uma das maiores instituições filantrópicas do país. Conhecida como o “Anjo Bom da Bahia”, tornou-se, em 2019, a primeira santa brasileira, canonizada pelo papa Francisco.

Carolina Maria de Jesus, escritora negra e catadora de papel, registrou em diários a fome e a exclusão vividas na favela do Canindé, em São Paulo. Publicado em 1960, seu livro “Quarto de Despejo” tornou-se um dos maiores best-sellers da literatura brasileira, dando voz literária a uma realidade até então silenciada pela história oficial.

Rachel de Queiroz, romancista cearense, autora de “O Quinze” e “Memorial de Maria Moura”, tornou-se, em 1977, a primeira mulher eleita para a Academia Brasileira de Letras, mais de 70 anos após sua fundação, abrindo caminho para as escritoras que a sucederam na instituição.

Clarice Lispector, uma das maiores escritoras da língua portuguesa, autora de obras como “A Hora da Estrela” e “A Paixão Segundo G.H.”, revolucionou a prosa brasileira com uma linguagem introspectiva e única, tornando-se referência mundial da literatura do século XX.

Lideranças do século XX

Margaret Thatcher, a “Dama de Ferro”, assumiu o cargo de primeira-ministra em 1979, conduziu reformas econômicas profundas e se tornou uma referência ocidental durante a Guerra Fria.

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Placa memorial dedicada a Golda Meir, uma das principais lideranças políticas de Israel no século XX (Foto: Adobe Stock)

Golda Meir, professora ucraniana, conhecida como a “Dama de Ferro de Israel”, liderou o país durante a Guerra do Yom Kippur e foi uma figura crucial na fundação do Estado israelense e na diplomacia global, entre 1969 e 1974.

Corazon Aquino liderou a redemocratização pacífica das Filipinas. Um levante popular massivo e majoritariamente pacífico derrubou, em 1986, o regime autoritário de Ferdinand Marcos e restaurou a democracia. Aquino tornou-se a primeira mulher a presidir o país e toda a Ásia.

Violeta Chamorro encerrou uma guerra civil ao vencer as eleições na Nicarágua, em 1990.

Cada uma, à sua maneira, defendeu a soberania e a estabilidade de sua nação em momentos de crise.

O poder de unir pessoas

Nem toda liderança se mede pelo poder político. Diana, princesa de Gales, transformou a imagem da monarquia britânica com empatia e ação humanitária. Visitou hospitais, apoiou pesquisas médicas e ajudou a reduzir o estigma da AIDS ao cumprimentar pacientes sem luvas, em plena década de 1980. Tornou-se, para milhões, a “Princesa do Povo”.

A história também ensina que notoriedade não é sinônimo de liderança. Figuras como Maria Bonita, ligada ao cangaço, ocupam lugar na memória popular por integrarem um fenômeno de violência e banditismo, não pelo exercício de liderança institucional. Atualmente, muitas mulheres ligadas ao chorume social e ao narcotráfico também se infiltram de maneira nociva na política. Mas uma distinção importa. Nem toda mulher lembrada pela história liderou, e é a liderança, não a notoriedade, que inspira.

O valor do feminino na política e na sociedade

Se há um fio condutor entre Cleópatra, Catarina de Médici, Elizabeth I, Nzinga Mbandi, Joana d’Arc, Maria Quitéria e tantas outras, não é apenas a coragem, mas também a capacidade de unir firmeza ao senso de cuidado coletivo. Rainhas que defenderam fronteiras sem perder a lucidez diplomática; guerreiras que lutaram sem deixar de proteger seu povo; imperatrizes que exerceram poder sem abrir mão da sensibilidade. Esse é precisamente o valor que o feminino historicamente trouxe à política. É uma forma que soma força e cuidado, autoridade e escuta, sem tornar a liderança mais branda.

Uma mesma história, dois capítulos

O poder da mulher ao longo dos séculos se revela nas histórias de rainhas, guerreiras e estadistas que, cada uma à sua maneira, defenderam sua terra, sua família e seu povo. Conhecer essas histórias é entender que a liderança feminina não pertence a uma única época, ideologia ou religião. Ela faz parte da própria evolução da civilização e continua inspirando mulheres a construir um futuro marcado por responsabilidade, dignidade e coragem.

Essa lição atravessa os séculos e chega ao presente. A política contemporânea, no Brasil e no mundo, ainda se beneficia pouco dessa combinação, porque a presença feminina nos espaços de decisão permanece proporcionalmente reduzida diante de um eleitorado majoritariamente feminino. A história aqui reunida mostra uma capacidade que precisa ser reconhecida e mobilizada, não conquistada. A mulher consciente de hoje, ao votar e ao se candidatar, não inaugura um protagonismo novo. Retoma um protagonismo que a história sempre lhe reservou.