A edição de setembro da New York Fashion Week terminou com uma mudança que vai além das tendências apresentadas nas passarelas. Pela primeira vez, os estilistas incluídos no calendário oficial não puderam usar peles de animais criados ou capturados especificamente para essa finalidade.
A regra entrou em vigor na temporada realizada entre 10 e 15 de setembro de 2026 e alcança peles de animais como vison, raposa, coelho, chinchila, coiote e cão-guaxinim. A única exceção prevista é para materiais obtidos por comunidades indígenas por meio de práticas tradicionais de caça de subsistência.
A decisão foi anunciada pelo Council of Fashion Designers of America, o CFDA, entidade responsável pelo calendário oficial da semana de moda nova-iorquina. Segundo o conselho, a presença desse tipo de material já era pequena nos desfiles da cidade. A formalização, porém, estabelece um critério comum para todas as marcas que desejam integrar a programação.
Uma mudança importante, mas com alcance definido
A medida não é uma lei da cidade de Nova York e não proíbe a venda de peles em lojas. Ela se aplica às coleções apresentadas nos eventos reconhecidos pelo calendário oficial da Fashion Week. Marcas e apresentações realizadas fora dessa programação não ficam automaticamente submetidas à mesma regra.
O comunicado do CFDA também se concentra nas peles retiradas de animais mortos por seus pelos. Não anuncia uma proibição geral de materiais de origem animal, como couro, lã ou plumas. Essa distinção ajuda a entender por que o debate sobre o uso de animais na moda continua, mesmo depois da nova norma.
Com a decisão, Nova York se aproxima de semanas de moda que já adotaram restrições semelhantes. De acordo com o CFDA, Londres deixou de promover peles em seu calendário em 2023. Copenhagen, Berlim, Estocolmo, Amsterdã, Helsinque e Melbourne também assumiram posições contrárias ao material.
O desafio dos materiais sintéticos

Casacos de pele sintética ocupam o espaço deixado pelas peles animais, embora a composição dessas alternativas também provoque questionamentos ambientais (Foto: Adobe Stock)
A retirada da pele animal cria outra pergunta. O que deve ocupar seu lugar? Durante décadas, a alternativa mais comum foi a pele sintética, feita para reproduzir volume, toque e aparência por meio de fibras como poliéster e acrílico.
Essa substituição responde à questão do bem-estar animal naquele produto, mas pode trazer impactos ligados ao uso de matérias-primas fósseis, à liberação de microfibras e ao descarte. Por isso, chamar uma peça de sintética ou vegana não basta para determinar seu desempenho ambiental.
O Materials Market Report 2025, da organização internacional Textile Exchange, mostra o tamanho do desafio. A produção mundial de fibras chegou a aproximadamente 132 milhões de toneladas em 2024. O poliéster respondeu por 59% desse total, e 88% do poliéster produzido teve origem fóssil. As fibras recicladas representaram somente 7,6% do mercado mundial. Menos de 1% veio da reciclagem de resíduos têxteis anteriores ou posteriores ao consumo.
O Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente também inclui os tecidos sintéticos entre as fontes de microplásticos. Durante a lavagem, essas roupas podem liberar pequenas fibras plásticas, que acabam chegando aos ambientes naturais.
A busca por novas soluções
O fim das peles no calendário nova-iorquino aumenta a pressão por materiais capazes de reunir aparência, resistência e menor impacto. Entre os caminhos pesquisados estão fibras recicladas, matérias-primas vegetais e biomateriais desenvolvidos para reproduzir texturas tradicionalmente associadas a produtos de origem animal.
O próprio CFDA informou que oferecerá aos designers materiais educativos e uma biblioteca de fornecedores e alternativas. A iniciativa reconhece que a proibição precisa ser acompanhada por pesquisa, acesso a novas tecnologias e capacidade de produção em escala.
Ainda não existe uma solução única. Um material vegetal pode exigir tratamentos químicos; uma fibra reciclada pode ter dificuldades de ser novamente reciclada; uma peça sintética durável pode permanecer em uso por muitos anos. Origem, processo de fabricação, resistência, possibilidade de reparo e destino depois do uso precisam ser avaliados em conjunto.

A escolha das matérias-primas tornou-se uma etapa central na busca por uma moda com menor impacto (Foto: Adobe Stock)
O que observar antes de comprar
Para quem consome, a etiqueta continua sendo um bom ponto de partida. Ela permite identificar a composição da peça e verificar se existem fibras recicladas. Informações sobre procedência, certificações, cuidados e possibilidade de reparo também ajudam a avaliar a escolha.
Durabilidade importa. Uma roupa bem cuidada, usada muitas vezes e mantida em circulação por meio de reparo, troca ou revenda aproveita melhor os recursos empregados em sua produção. Já uma peça comprada apenas pelo apelo de uma tendência pode rapidamente se transformar em descarte, qualquer que seja o material utilizado.
As palavras natural, sintético, vegano e sustentável descrevem aspectos diferentes de uma roupa. Conhecer a composição e pensar no tempo de uso oferece uma visão mais completa do que confiar apenas na expressão impressa na etiqueta ou na campanha publicitária.
Uma passarela que aponta mudanças
A decisão da New York Fashion Week tem força simbólica porque os grandes calendários influenciam escolhas de marcas, fornecedores e consumidores. Ao retirar as peles animais de sua programação oficial, o CFDA transforma uma prática que já vinha perdendo espaço em uma regra declarada.
A medida resolve uma parte da discussão e abre outras. A moda passa a ser desafiada a criar texturas, volumes e acabamentos sem recorrer às peles proibidas e sem ampliar a dependência de materiais fósseis. O resultado dependerá da qualidade das alternativas, da transparência sobre sua composição e, principalmente, de roupas concebidas para permanecer em uso.



