Comportamento

Mãe, você também pode ir

10/1/2026

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Viajar sozinha pode abrir espaço para desejos, escolhas e descobertas que a rotina costuma abafar (Foto: Arquivo pessoal)

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Viajar sozinha pode abrir espaço para desejos, escolhas e descobertas que a rotina costuma abafar

Outubro chega e, com ele, o Dia das Crianças. A gente pensa no presente, no passeio, no que o filho quer. Ok. Mas, no meio desse babado todo, eu venho fazer uma pergunta: e a mãe, onde fica?

A maternidade ocupa um espaço enorme na nossa identidade. A gente vira motorista, secretária, enfermeira, mediadora de conflitos, costureira, especialista em lanche saudável e, de alguma maneira, ainda precisa lembrar onde colocou aquele batom que não borra na boca.

Antes da mãe, existia uma mulher. E, mesmo com todas essas funções acumuladas, ela continua aí. Sem dúvida, agora é bem diferente daquela de antes dos filhos. Eu nem gosto muito desse conceito de “resgatar quem você era”, porque aquela mulher viveu outra vida, em outro tempo, com outras prioridades.

O convite desta colunista que vos escreve é conhecer quem você é agora, com tudo o que a maternidade acrescentou, bagunçou, amadureceu e transformou. Afinal, sem mãe não há filhos. Então celebre, sim, o Dia das Crianças junto com seus amores, mesmo que eles já sejam adolescentes e comemorar a data não farme aura.

Uma das experiências mais interessantes para esse reencontro, para mim, é viajar sozinha.

Sozinha mesmo! Nada de ir com uma amiga ou encontrar alguém conhecido no destino. Também não vale viajar a trabalho. É por lazer. Mesmo que seja por poucos dias. Uma cidade perto de casa também vale.

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Quando ninguém precisa dela por algumas horas, uma mãe pode redescobrir o prazer de escolher o que fazer com o próprio tempo (Arquivo pessoal)

Quando você viaja com os filhos, continua exercendo a maternidade, e a programação é outra. Afinal, ninguém vai passear com criança pelo Red Light District, em Amsterdã, por exemplo.

Em uma viagem a trabalho, o papel profissional ocupa tudo e, às vezes, nem sobra tempo para conhecer aquele museu ou entrar em uma loja que despertou sua curiosidade. Com o parceiro ou as amigas, ainda existem negociações: onde comer, a que horas sair, qual passeio fazer, quanto gastar, quem quer museu e quem prefere shopping.

Sozinha, ficam apenas você e suas vontades.

E, sim, isso pode ser maravilhoso e levemente assustador. Também pode ser libertador. Você escolhe a hora de acordar, decide se quer passar quatro horas em um museu ou uma tarde inteira em um café. Pode mudar o roteiro, conversar com desconhecidos, entrar em um restaurante porque achou bonito ou simplesmente voltar para o hotel e dormir.

Talvez até encontre o tédio. E eu acho esse momento um presente, porque é aí que aparecem perguntas que a rotina abafa: o que eu gostaria de fazer hoje? O que me diverte? O que desperta minha curiosidade? Como uso meu tempo quando ninguém precisa de mim?

Para uma mãe, chegar até essa viagem exige coragem. Tem logística, escola, cachorro, agendas compartilhadas, rede de apoio e aquela vontade de ligar a cada hora para saber se todo mundo sobreviveu sem você.

A parte desafiadora é confiar que os outros adultos dão conta de cuidar. E deixa eu te dar uma notícia trágica? Eles dão. Do jeito deles, mas dão.

Pode ser que seus filhos ganhem mais doces do que o normal, durmam fora do horário ou faltem um ou dois dias às atividades do contraturno. Mas também podem ganhar maturidade quando percebem que a mãe tem vida própria. Podem desenvolver mais autonomia, autocuidado, autopercepção e até pensamento analítico, dentro do que é possível para cada idade.

Eles aprendem que amar alguém não significa viver grudado naquela pessoa. Aprendem que a mãe tem interesses e sonhos, merece descanso e pode escrever histórias autorais que não começam nem terminam na maternidade.

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A maternidade continua presente, enquanto outras partes da mulher também encontram espaço para viver novas histórias (Arquivo pessoal)

Você continua sendo mãe quando o avião decola, acredite. Vai olhar uma vitrine e pensar que seu filho adoraria aquilo. Talvez compre mais coisas para ele do que para você. E tudo bem se trouxer mais presentes para si do que para ele. Faz parte. Isso não diminui seu valor como mãe.

O ponto é permitir que, por alguns dias, outra parte sua também tenha espaço para experimentar a vida.

No chá de que participei recentemente no canal da Aurora no YouTube, Dani Monteiro, que estava me entrevistando, contou a história da mãe. Depois de passar uma vida cuidando dos filhos, da própria mãe e do marido, além de atravessar dois lutos importantes, ela decidiu viajar sozinha durante meses.

Queria descobrir o que a alegrava, o que achava bonito e quem era naquela nova fase. Achei esse relato muito importante e forte. Só penso que a gente não precisa esperar todos os outros papéis diminuírem para descobrir a liberdade que nos pertence.

Então, neste mês das crianças, fica aqui meu convite às mães: além de pensar no passeio dos filhos, comece a imaginar o seu.

Pode ser um fim de semana. Pode ser uma cidade vizinha. Pode ser aquela viagem que você salva há anos e sempre encontra um motivo para adiar.

Talvez, para uma mãe, a coragem às vezes caiba nesta frase: “Dá licença, vou ali viver um pouquinho da minha vida. Já volto.”

E você volta. Uma mãe mais amorosa, uma mulher mais feliz e, quem sabe, um pouco mais dona de si mesma.