Cultura

Netinho e a arte de viver além dos palcos

20/10/2026

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Netinho deixou sua marca na música brasileira e uma trajetória de sucessos que atravessaram gerações (Foto: Divulgação)

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Em uma conversa que ganha novo significado com o tempo, o cantor compartilhou reflexões sobre a carreira, a importância das pausas e a necessidade de encontrar tempo para viver

Há entrevistas que ganham um significado ainda maior com o passar do tempo. A conversa que tive com Netinho, um dos grandes nomes do axé brasileiro, é uma delas. Ao rever nosso encontro, especialmente agora, com a notícia de sua morte, me chamam a atenção não apenas as lembranças de sua trajetória musical, mas a maneira como ele falava sobre a vida.

Conhecido por sua energia nos trios elétricos e por sucessos que atravessaram gerações, Netinho também tinha uma história de pausas e descobertas. E foi justamente sobre isso que conversamos no programa Nomes.

Na época, ele estava de volta aos palcos depois de três anos afastado. Quis saber como alguém com uma carreira de tanto sucesso conseguira tomar a decisão de parar.

Netinho contou que começou a tocar profissionalmente aos 16 anos, em Salvador. Na mesma época, havia ingressado no curso de Engenharia Civil da Universidade Católica, mas a paixão pela música falou mais alto. Saiu de casa para seguir seu caminho, contrariando a vontade da família.

A partir dali, o trabalho passou a ocupar praticamente todo o seu tempo. Foram cinco anos à frente da Banda Beijo e outros dez em carreira solo, entre gravações, shows, viagens, carnavais e micaretas.

Até que percebeu que precisava olhar para a própria vida. A decisão não tinha relação com dificuldades profissionais. Pelo contrário, tudo caminhava bem. Mas havia questões pessoais que precisavam de atenção.

Cumpriu os compromissos agendados e viajou. Passou cinco meses em Barcelona, onde tinha familiares, e outros três em Londres. Foram oito meses longe do Brasil, sem a correria dos shows e das obrigações profissionais.

Foi nesse período que descobriu o valor do ócio. "Você precisa do ócio para produzir coisas novas. Senão você fica repetitivo e não tem inspiração", disse Netinho.

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Luzia Santhana entrevista Netinho no programa Nomes, em uma conversa sobre carreira, escolhas pessoais e a importância de encontrar tempo para viver (Foto: Reprodução/Programa Nomes)

Ele me contou que havia passado tantos anos priorizando a música que quase não encontrava espaço para outras experiências. Viajar sem pressa, conhecer pessoas e simplesmente ter tempo para pensar mudaram sua maneira de enxergar a vida.

Achei especialmente interessante ouvir isso de alguém que havia passado boa parte da vida diante de multidões. Um artista acostumado à intensidade dos carnavais falando sobre a importância de desacelerar.

Netinho também reconheceu que a correria profissional o impedia de perceber suas próprias inquietações. Só depois da pausa conseguiu olhar com tranquilidade para o que estava sentindo.

A entrevista foi ainda uma oportunidade de revisitar sua trajetória, da Banda Beijo aos grandes sucessos da carreira solo. Mas uma das falas que mais me marcaram veio quando deixou um conselho: "O brasileiro vive tão bombardeado que às vezes esquece de viver sua vida", disse.

Hoje, ao recordar nossa conversa, penso na importância dessa mensagem. Estamos sempre ocupados, tentando dar conta de tudo. E, muitas vezes, esquecemos que viver também exige tempo.

Netinho nos deixa uma história musical que faz parte da memória afetiva de milhões de brasileiros. Sua voz continuará presente nas festas, nos carnavais e nas canções que aprendemos a cantar juntos.

Eu guardo também a lembrança daquele encontro e de um artista que, ao falar sobre a própria experiência, nos convidou a olhar com mais atenção para a nossa.

Talvez essa seja uma das mensagens mais bonitas que ficaram daquela conversa: trabalhar, criar e realizar sonhos é maravilhoso. Mas é preciso encontrar tempo para viver tudo isso.