Cultura

Se podemos ver tudo em casa, por que ainda fazemos fila para ir ao cinema?

15/10/2026

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Mesmo na era do streaming, a experiência coletiva de assistir a um filme segue atraindo público às salas de cinema (Foto: Adobe Stock)

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A Mostra de São Paulo chega aos 50 anos e mostra por que a experiência coletiva do cinema ainda resiste ao streaming

Escolher o filme. Comprar o ingresso. Sair de casa. Chegar um pouco antes. Sentar em uma sala escura ao lado de pessoas desconhecidas e, durante as próximas duas horas, aceitar que aquela tela será a única disponível.

Em tempos de streaming, celular e excesso de estímulos, a experiência parece quase uma extravagância. Mas o cinema continua conseguindo fazer algo que assistir a um filme no sofá dificilmente reproduz. Talvez seja por isso que a Mostra Internacional de Cinema em São Paulo chega aos 50 anos ainda ocupando dezenas de salas pela cidade. 

Entre 15 e 29 de outubro, a edição comemorativa reúne 380 títulos de 93 países, entre longas, curtas e séries, em 57 salas de cinema, espaços culturais e CEUs da capital paulista. São produções já premiadas em grandes festivais internacionais, novos diretores, clássicos restaurados e mais de cem títulos brasileiros.

É uma programação quase impossível de acompanhar por completo. E talvez parte da graça esteja justamente nisso.

O filme que você não estava procurando

Os serviços de streaming aprenderam a conhecer nossos hábitos. Registram o que assistimos, o que abandonamos, quais gêneros preferimos e, a partir disso, oferecem novas opções. Nos festivais, a lógica pode ser outra.

A pessoa entra para assistir a um diretor que conhece e sai falando de um filme iraniano, coreano, mexicano ou brasileiro do qual nunca havia ouvido falar. Escolhe uma sessão porque o horário é conveniente. Ou porque gostou do título. Ou porque alguém comentou na fila.

A Mostra nasceu em 1977 e, ao longo de cinco décadas, exibiu mais de 11 mil filmes e reuniu registros de mais de 8 mil cineastas. Para marcar a 50ª edição, esse material passa a integrar um novo acervo digital, organizado por edição, filme, direção e país.

Vista dessa perspectiva, a história do festival também conta um pouco da maneira como o público brasileiro descobriu cinematografias que nem sempre encontravam espaço no circuito comercial.

A sala também faz parte do filme

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Rir, se emocionar e reagir junto transforma a experiência de ver um filme em uma sala cheia (Foto: Adobe Stock)

Há ainda uma diferença simples entre ver um filme sozinho e assisti-lo com outras pessoas. Uma comédia muda quando cem pessoas riem juntas. Um silêncio pode parecer mais longo em uma sala completamente quieta. Uma cena desconfortável ganha outra dimensão quando ninguém ao redor sabe muito bem como reagir. A obra é a mesma. A experiência, não.

Ir ao cinema também cria uma espécie de compromisso com o filme. Não há louça para lavar no meio da sessão, mensagens sendo respondidas a cada cinco minutos ou um episódio seguinte começando automaticamente. Durante algum tempo, a atenção tem endereço. E esse talvez tenha se tornado um dos pequenos luxos contemporâneos.

Cinquenta anos depois, a Mostra continua olhando para o novo

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Criado pelo cineasta James Gray, o pôster da 50ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo marca a edição comemorativa do festival, realizada de 15 a 29 de outubro (Foto: Divulgação/Mostra Internacional de Cinema em São Paulo)

A edição de 2026 reúne tanto cineastas consagrados quanto estreantes. A Competição Novos Diretores tem 113 produções de realizadores em seu primeiro ou segundo longa-metragem, vindas de mais de 60 países. O Brasil participa com dez títulos nessa seção.

Entre os nomes já conhecidos do público está o norte-americano James Gray. Diretor de Armageddon Time e Ad Astra, ele assina o pôster comemorativo desta edição e apresenta Tigre de Papel, filme escolhido para a abertura. Gray também recebe o Prêmio Leon Cakoff e participa de uma conversa mediada por Walter Salles. A programação ainda inclui filmes premiados recentemente em festivais como Cannes e Veneza e uma grande presença do cinema brasileiro contemporâneo.

Para quem tem filhos, há também uma porta de entrada interessante. A terceira edição da Mostrinha reúne 21 obras de 20 países voltadas ao público infantil e juvenil. Dezesseis delas são inéditas no Brasil.

Cinema também é memória

A comemoração dos 50 anos não fica restrita às telas. A exposição gratuita Tempo e Movimento: Os 50 Anos da Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, concebida pela cineasta e multiartista Daniela Thomas, ocupa o Solar Fábio Prado entre 4 e 29 de outubro e percorre visualmente a trajetória do festival. O título vem de uma definição da artista Tomie Ohtake: para ela, cinema era “tempo e movimento”.

Talvez seja também uma boa definição para explicar por que continuamos entrando em salas de cinema. O modo de assistir mudou, as telas se multiplicaram e hoje carregamos no bolso um catálogo que seria inimaginável quando a Mostra começou. Mas há uma experiência que continua dependendo de presença. Escolher uma sessão, atravessar a cidade, sentar no escuro e assistir junto. Cinquenta anos depois, ainda há filmes pelos quais vale a pena sair de casa.

Serviço

50ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo
De 15 a 29 de outubro de 2026
380 títulos de 93 países
Exibições em 57 salas, espaços culturais e CEUs de São Paulo
Programação e informações no site oficial da Mostra